Trabalhadores da Educação decidem manter greve em BH após intimidações SMED e encerramento das negociações

Manutenção do movimento ocorre em meio a tentativas de intimidação e a uma série de inverdades ditas pela secretária de Educação, Natália Araújo, na imprensa

Os trabalhadores concursados em Educação da rede municipal de Belo Horizonte deliberaram, deliberaram pela continuidade da greve em assembleia feita hoje (26) na porta da Prefeitura, centro da cidade.

A manutenção do movimento acontece em meio a tentativas de intimidação — como o anúncio de corte de ponto e o impedimento da reposição de aulas — e a uma série de inverdades ditas pela secretária de Educação, Natália Araújo, na imprensa. Essas declarações têm demandado, inclusive, que o Sind-REDE/BH venha a público frequentemente para desmentir.

Ao prometer o corte de ponto e proibir a reposição das aulas, a secretária Natália Araújo coloca em risco o direito legal dos estudantes aos 200 dias letivos.

“Nós fazemos anualmente um acordo de reposição com a Prefeitura por responsabilidade com as crianças, para garantir o direito do estudante. Se ela não quer garantir, nós vamos discutir a reposição de greve sim, seja com o prefeito, com o Ministério Público ou com a Promotoria da Infância e da Juventude”, afirmou a Diretoria Colegiada do Sind-REDE/BH.

Calendário de greve e próximos passos
Enquanto a PBH segue de portas fechadas, os trabalhadores seguem mobilizados. A categoria definiu como agenda de greve: 

27/05, quarta-feira
15h: Vigília por negociação: “Viaja não, Damião!”
Onde: porta da PBH, Centro

17h: Participação no ato unificado pelo fim da escala 6×1
Onde: Praça Sete, Centro

28 de maio, quinta-feira
08h30: Assembleia de Greve dos Trabalhadores em Educação Concursados
Onde: Praça da Liberdade, Funcionários

Desmentindo declarações inverídicas
O Sind-Rede/BH veio a público nesta manhã, mais uma vez, para rebater as declarações da secretária em recente coletiva de imprensa. 

A pauta de reivindicações, construída em conjunto pela categoria, tem 78 itens. Diferentemente do que foi dito pela secretária, o primeiro deles é a reivindicação salarial — o pagamento integral do Piso no primeiro nível da carreira, com 5,4% + 15% retroativo a janeiro. Ao contrário do que a SMED tenta sugerir à opinião pública, a pauta foi oficialmente aprovada e entregue ao governo municipal no dia 12 de março de 2026.

Além do documento oficial, os trabalhadores reforçam, o posicionamento sobre pontos importantes tratados nas negociações:

1. Convênios com as OSCs e terceirização

Ressaltamos a urgência de acabar com a terceirização dos trabalhadores de Apoio ao Educando, que acompanham as crianças com deficiência. Diante da intransigência da PBH em não romper com esse modelo de contratação, fazemos as seguintes ponderações:

  • Desvio de função e precarização pedagógica:
    Na portaria de credenciamento e nos planos de trabalho das instituições, as OSCs terão um grupo de professores para formar os trabalhadores de apoio e elaborar os planos de atendimento às crianças. Somos contra isso! Além de executarem funções docentes, isso mantém a fragilidade do atendimento pedagógico. Para um plano efetivo, é preciso ampliar o número de professores de Atendimento Educacional Especializado (AEE) concursados em cada unidade, para atuarem junto com os professores de sala.
  • Critérios de contratação obscuros:
    O primeiro grupo a ser contratado serão os atuais profissionais de apoio (a partir de uma formação inicial de 80h). Não existe previsão de critérios claros, publicizados e fiscalizáveis para a seleção de novos profissionais, o que não é aceitável.
  • “Banco de talentos” e instabilidade:
    A proposta de contratar familiares das crianças como “horistas” para substituir profissionais que adoeçam não garante a oferta necessária. Serão pelo menos 5 mil trabalhadores, com substituições diárias. Familiares podem ter preferência, desde que haja um processo publicizado e que se estabeleça contrato via CLT, mesmo que as  jornadas diferenciadas.
  • Falta  de transparência:
    A prestação de contas e a planilha de custos das OSCs conveniadas precisam ser públicas. Além disso, como a ampla maioria das conveniadas é vinculada a instituições religiosas, é imprescindível garantir a laicidade da atuação junto aos profissionais de apoio.

2. Reorganização da Educação Infantil

Houve uma resposta favorável da Prefeitura em propor a inclusão na Lei Orgânica de que o horário integral da Educação Infantil se dará estritamente com professores concursados, evitando a troca por monitores. No entanto, alertamos para o seguinte ponto:

  • Jornada imposta:
    A reorganização para que o trabalhador fique 6 horas diretas, por 5 dias na semana em sala de aula, tem sido forçada. Embora a SMED afirme ser uma opção voluntária, trabalhadores estão sendo retirados das turmas em que atuam caso não concordem, gerando enorme preocupação com a possibilidade de excedência.

3. Falta de Professores nas escolas

Depois de muita luta, a Prefeitura nomeou 400 professores. No entanto, a SMED ainda se nega a publicizar o quadro de vagas de cada escola. A gestão propõe uma comissão para fazer um acompanhamento trimestral (com a qual temos acordo), mas é urgente publicizar agora o quadro de vagas existentes e nomear profissionais concursados para ocupá-las imediatamente.

4. Repasse de verbas para as escolas

Reivindicamos que sejam explicitados critérios claros e unificados para os repasses, e não um debate feito “escola por escola”. A PBH concordou em criar esses critérios, mas não estipulou prazos nem explicitou como está definindo o plano de trabalho de cada escola neste exato momento.

A verdade sobre as respostas da PBH

Analisando o ofício de resposta da Prefeitura, fica evidente que não há atendimento da ampla maioria das pautas. O ofício traz 8 itens.

  • Um deles trata-se apenas de uma correção necessária de carreira que atinge pouco mais de 30 professores, algo que sequer é pauta estrutural da greve, embora seja  importante resolver.
  • Outros 6 itens referem-se apenas à formação de comissões, ou protocolos futuros importantes, mas que são resposta a que teoricamente deveriam estar resolvidos em janeiro.

    Portanto, é falsa a narrativa de que há “8 itens prioritários” e mais falso ainda que 7 deles tenham sido solucionados pela gestão.

A falácia da “disputa sindical”

A alegação de que a greve é movida por uma disputa de base sindical é uma invenção da secretária. Isso em nenhum momento foi trazido para a mesa. O que existe é uma tentativa de algumas OSCs de fazerem propaganda para outra entidade. Ocorre que o Sind-Rede/BH é o sindicato legal desses trabalhadores, mesmo estando nas OSCs. Qualquer debate sobre esse tema será feito nos espaços adequados e não na negociação desta greve.

Uma greve em defesa da política educacional

A acusação de ser uma greve meramente “política” só se sustenta no fato de que discutimos, sim, a política educacional que está sendo adotada em BH, além da urgente questão salarial. Isso é legítimo, dentre outras coisas, porque essas políticas definem as nossas condições de trabalho no chão da escola.

Corte de ponto e a ameaça aos 200 dias letivos

A retaliação com o corte de salários, aliada à retirada do direito de reposição das aulas pelos trabalhadores, abre um precedente horrível para a cidade. A secretária, como responsável máxima pelo sistema educacional, cria uma interpretação negativa e perigosa sobre a obrigatoriedade de oferta dos 200 dias letivos nas escolas.
Isso compromete diretamente os estudantes concluintes do Ensino Fundamental — que terão dificuldade para acessar o Ensino Médio no próximo ano — e as famílias que precisarem transferir a criança de escola. Trata-se de uma ameaça que pune a sociedade e em nada ajuda a construir saídas.