Mais de 120 pessoas foram assassinadas em operação. Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil
A chamada “Operação Contenção”, realizada no Rio de Janeiro sob comando do governador Cláudio Castro (PL), já entrou para a história como a mais letal ação policial do país : até o momento, 123 pessoas foram mortas , destas, quatro são policiais . A maioria dos corpos foi abandonada na mata , sem perícia ou registro oficial, e recolhida pelos próprios moradores — uma cena de horror que expõe a desumanização completa das populações negras e pobres das favelas fluminenses.
Em vez de prestar contas à sociedade, o governador tenta transformar o massacre em palanque eleitoral , sustentando a narrativa de que todas as vítimas seriam “bandidos”, mesmo sem identificação ou investigação. Segundo juristas e especialistas em direitos humanos, a atitude demonstra uma tentativa cínica de legitimar o extermínio como política de segurança pública , se apoiando na polarização da sociedade e no populismo de ultra-direita para consolidar uma base eleitoral conservadora para o próximo ano.
Morte como política de Estado
Algumas entidades de direitos humanos classificam a operação como “genocídio” . A nota pública “Segurança não se faz com sangue”, assinada por 27 organizações da sociedade civil especializadas em segurança pública afirma que a chacina representa a consolidação de uma política baseada no uso da força e da morte , travestida de “guerra ao crime”. O documento lembra que, ao longo de quase 40 anos de democracia, as favelas do Rio têm sido o palco de uma política seletiva, racista e excludente , dirigida contra as populações negras e empobrecidas, “os resultados da operação expõem o fracasso e a violência estrutural do Estado.”
A comparação com outras tragédias é inevitável: o massacre do Jacarezinho (2021) , que matou 27 pessoas, e o Massacre do Carandiru (1992) , com 111 mortos, foram superados pela brutalidade da “Operação Contenção”.
Um governo que produz a morte
Para além das vidas destruídas, a operação revela o colapso da política de segurança no Rio de Janeiro . O orçamento previsto para as polícias em 2026 é de R$ 19 bilhões — recursos que, em vez de financiar inteligência e investigação, são usados para alimentar uma engrenagem de confronto e morte .
Mesmo com a gigantesca operação, o principal alvo, o traficante “Doca”, não foi capturado . Dos 123 mortos, 61 corpos foram encontrados depois do confronto, e os prejuízos ao crime organizado são mínimos: as armas apreendidas somam cerca de R$ 1,5 milhão, menos de 10% do faturamento mensal do Comando Vermelho.
Uma planilha apreendida durante a operação revela gastos de R$ 5 milhões em um único mês com armas e munição por criminosos do CV . Boa parte dos fornecedores são de CACs.
Enquanto isso, operações de inteligência, como a Carbono Oculto , realizada há dois meses contra o PCC, resultaram em R$ 9 bilhões de prejuízo à organização criminosa sem um único disparo .
O uso eleitoreiro da morte
Para o Sind-REDE/BH, a “Operação Contenção” simboliza o uso político da morte como ferramenta de governo . A política genocida de Cláudio Castro tem o mesmo DNA das ações de extermínio que se multiplicam em todo o país, sempre sob o pretexto de “combater o crime”, mas que, na prática, miram corpos negros e pobres .
O massacre do Rio não é um caso isolado — é parte de um projeto autoritário de poder , que transforma a polícia em instrumento de guerra interna e tenta normalizar o terror como política pública.
Risco à soberania
Não é à toa que Cláudio Castro utilizou o termo “narco-terrorista” para se referir ao Comando Vermelho, em um aceno claro à Trump e aos Estados Unidos, que visam intervir militarmente na América Latina sob o pretexto de combater esses grupos. É essa política que justifica os ataques recentes dos Estados Unidos à Venezuela e à Colômbia.
Segundo fontes próximas a Castro, um documento elaborado pela Inteligência da Secretaria de Segurança Pública do Rio foi entregue ao Consulado dos Estados Unidos no Rio de Janeiro, há cerca de oito meses, afirmando que o Comando Vermelho é um grupo terrorista com atuação nos Estados Unidos.
Chamado às Ruas
O Sind-REDE/BH se soma às entidades populares, sindicatos e movimentos sociais que convocam o ato nacional “Chamada geral contra a morte – O Estado mata negros e pobres no Rio de Janeiro e no Brasil” .
📣 Ato público em repúdio à chacina e à política genocida do governo Cláudio Castro 📍 Praça 7, Belo Horizonte 🗓 Sexta-feira, 31 de outubro 🕔 17h
O protesto exige a prisão do governador Cláudio Castro e de toda a cadeia de comando da Polícia Militar e Civil do Rio de Janeiro .Mais do que denunciar um massacre, é hora de dizer basta à morte como projeto político . É preciso que haja uma apuração rigorosa de todos os excessos cometidos, por uma comissão independente da Polícia e do Ministério Público do Rio! Justiça para todas as vítimas!