A Greve Docente de 2025: Embrião para a Luta Cotidiana e Transformadora

Duas fraquezas não fazem uma fraqueza maior, fazem uma força nova. José Saramago

A disposição da categoria de lutar sempre definiu o nosso sucesso nos embates que travamos ao longo dos anos com o governo. Além do número de companheiros em greve, as assembleias cheias, os atos na rua também foram relevantes. 

Muitas vezes não consideramos, porém, a imagem que a cidade constrói do movimento. A imagem positiva sempre ajudou a produzir uma sinergia que nos alimenta e nos fortalece na luta. É a partir deste ponto de vista que pretendo avaliar o movimento de greve de 2025.

A sociedade capitalista é injusta e desigual e esta situação se agrava na medida que as classes hegemônicas conseguem implementar inovações de exploração das massas, promovendo táticas que ofuscam e dificultam o povo enxergar como se dá o processo do acumulativo e concentrador de riquezas e poder nas mãos dos mais ricos, cuja consequência é o crescimento das injustiças sociais e das desigualdades. 

Neste contexto, professores e professoras se transformam em sujeitos potencialmente perigosos, pois são capazes de criar obstáculos aos interesses do capitalismo. Nesse sentido, é muito importante para os lacaios nos governos derrotar a luta dos trabalhadores da educação tanto quanto “distraí-los” na luta que se restringe aos interesses da categoria. O que o governo não quer de forma alguma é permitir que estes se identifiquem e lutem lado a lado com as camadas mais pobres, que são os usuários da escola pública. Pior seria para as camadas hegemônicas é que professores percebessem que a luta expandida para o cotidiano, ao lado das comunidades escolares, seria mais capaz de produzir vitórias mais significativas, não só para si, mas para a classe trabalhadora. 

Distrair os docentes, então, significa, além de castigá-los com baixos salários, dificultar que se transformem, nas suas respectivas escolas, bem como em toda a rede, num coletivo de trabalho, que mais do que dar aulas, construa estratégias e propostas que eduque seus estudantes criticamente para viver neste mundo desigual, cheio de armadilhas.

Somos agentes de uma instituição que tem muita capilaridade, que é o braço do Estado que mais se aproxima do povo. Nesta instituição, temos voz própria e podemos oferecer oportunidade e condições para que o povo tome consciência da realidade social, política e econômica.

A greve deste ano foi um sucesso porque foi longa, com muitos docentes em greve, participando das assembleias e dos belos atos políticos nas ruas da cidade. Conseguimos trazer a população e a opinião pública para o nosso lado. Conquistamos pontos importantes da nossa pauta. 

No entanto, atingiremos tudo aquilo que podemos atingir se a nossa luta for cotidiana, ao lado das comunidades escolares, transgredindo currículos e propostas construídas nos gabinetes dos lacaios, longe do chão das escolas. 


Nilton Francisco Cardoso – Prof. EM Milton Campos.