Após manobra, ALMG aprova PEC que retira o direito do povo decidir sobre a Copasa

Sind-REDE/BH esteve presente dentro e fora da ALMG em protesto contra proposta que elimina o referendo popular para privatização

Votação final da emenda que retira exigência de referendo popular | Foto: Willian Dias/ALMG

A Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG) aprovou, nesta quarta-feira (05/11), em segundo turno, a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 24/2023, que retira da população o direito de decidir, por meio de referendo, sobre a privatização da Companhia de Saneamento de Minas Gerais (Copasa). A votação, marcada por denúncias de irregularidades e protestos dentro e fora do plenário, foi mais um capítulo do projeto do governador Romeu Zema (Novo) de entregar o patrimônio público mineiro ao mercado financeiro.

O Sind-REDE/BH esteve presente tanto na galeria da ALMG quanto na manifestação que tomou as ruas em frente ao Legislativo estadual, ao lado de outros sindicatos, movimentos sociais e estudantis. As palavras de ordem “A Copasa é do povo!” e “Se votar, não volta!” ecoaram durante todo o dia, denunciando a manobra antidemocrática que marcou a sessão.

Manobra e indignação popular

A PEC, que precisava de 48 votos favoráveis para ser aprovada, recebeu inicialmente 47 votos. No entanto, o presidente da Casa, Tadeu Martins Leite (MDB), aceitou, fora do tempo regulamentar, o voto do deputado Bruno Engler (PL), garantindo a aprovação. A manobra foi denunciada por parlamentares da oposição e por movimentos sociais como uma afronta ao regimento interno e à democracia.

O Sindágua/MG, sindicato que representa os trabalhadores da Copasa, anunciou que ingressará com ação judicial para anular a votação, enquanto o bloco de oposição Democracia e Luta deve recorrer da decisão. A chamada “PEC do Cala a Boca”, como vem sendo apelidada, representa uma tentativa de silenciar a população mineira sobre o destino de um patrimônio público essencial.

Um ataque ao povo e à democracia

A Copasa, com 62 anos de história, é responsável pelo abastecimento de água e saneamento em mais da metade dos municípios mineiros. Sua importância ultrapassa os números: trata-se de um serviço essencial à vida. Ao retirar o direito da população de decidir sobre a venda da estatal, o governo Zema ignora o princípio básico da soberania popular. O governador, que concede mais de R$ 25 bilhões em isenções fiscais a grandes empresas, tenta agora empurrar a conta para os trabalhadores, as famílias mais pobres e os serviços públicos.

Experiências recentes em outros estados mostram os riscos dessa política. No Rio de Janeiro, após a privatização da Cedae, o número de reclamações por falta d’água disparou; em Ouro Preto (MG), onde o serviço foi entregue à empresa Saneouro, a população enfrenta tarifas abusivas e cortes constantes. O lucro das empresas cresce, enquanto o direito à água é transformado em mercadoria.

Minas nas ruas contra a entrega do patrimônio

A aprovação da PEC ocorre poucos dias após as manifestações do último sábado (01/11), quando milhares de mineiros foram às ruas, na capital e no interior, para afirmar: “A Copasa e a Cemig são do povo e não estão à venda”. A força das mobilizações mostrou que o povo mineiro tem memória, voz e coragem para defender o que é seu. As manifestações se repetiram na quarta-feira, com forte presença popular na ALMG.

O Sind-REDE/BH reafirma que o povo tem, sim, capacidade e direito de decidir sobre o destino do patrimônio público. A democracia não se mede apenas pelo voto nas urnas, mas também pela escuta ativa e respeito à vontade popular. A tentativa de excluir a população desse debate fere não apenas a Constituição mineira, mas significa um retrocesso democrático sem precedentes, que exclui a participação direta da população em decidir sobre o seu patrimônio.

Governo Zema mente e deputados se acovardam

O governo Zema insiste em justificar a PEC como condição para renegociar a dívida do estado pelo Programa de Pleno Pagamento das Dívidas dos Estados (Propag), mas o governo federal já deixou claro que a privatização da Copasa não é exigência para adesão ao programa — e ainda prorrogou prazos para a negociação de dívidas com o objetivo de evitar decisões precipitadas. Trata-se, portanto, de uma escolha política e ideológica, que privilegia o mercado e ignora o interesse público.

A votação desta quarta-feira deixará marcas. Os deputados que se renderam à pressão do governo Zema enfrentarão o desgaste político às vésperas das eleições de 2026. O povo mineiro saberá lembrar quem votou contra a democracia e contra o direito de decidir sobre a água que chega à sua torneira. Afinal, “água da privada não dá pra beber”.

Veja quem são os 48 deputados que votaram contra o povo:

  1. Adalclever Lopes (PSD)
  2. Adriano Alvarenga (PP)
  3. Alencar da Silveira Jr. (PDT)
  4. Amanda Teixeira Dias (PL)
  5. Antônio Carlos Arantes (PL)
  6. Arlen Santiago (Avante)
  7. Arnaldo Silva (União)
  8. Betinho Pinto Coelho (PV)
  9. Bim da Ambulância (Avante)
  10. Bosco (Cidadania)
  11. Bruno Engler (PL)
  12. Carlos Henrique (Republicanos)
  13. Carol Caram (Avante)
  14. Cássio Soares (PSD)
  15. Charles Santos (Republicanos)
  16. Delegada Sheila (PL)
  17. Delegado Christiano Xavier (PSD)
  18. Doorgal Andrada (PRD)
  19. Doutor Paulo (PRD)
  20. Doutor Wilson Batista (PSD)
  21. Duarte Bechir (PSD)
  22. Enes Cândido (Republicanos)
  23. Gil Pereira (PSD)
  24. Grego (PMN)
  25. Gustavo Santana (PL)
  26. Gustavo Valadares (PSD)
  27. Ione Pinheiro (União)
  28. João Magalhães (MDB)
  29. Leandro Genaro (PSD)
  30. Leonídio Bouças (PSDB)
  31. Lincoln Drummond (PL)
  32. Lud Falcão (Pode)
  33. Maria Clara Marra (PSDB)
  34. Marli Ribeiro (PL)
  35. Nayara Rocha (PP)
  36. Neilando Pimenta (PSB)
  37. Noraldino Júnior (PSB)
  38. Oscar Teixeira (PP)
  39. Professor Wendel Mesquita (Solidariedade)
  40. Rafael Martins (PSD)
  41. Raul Belém (Cidadania)
  42. Roberto Andrade (PRD)
  43. Rodrigo Lopes (União)
  44. Thiago Cota (PDT)
  45. Tito Torres (PSD)
  46. Vitorio Junior (PP)
  47. Zé Guilherme (PP)
  48. Zé Laviola (Novo)