NOTAS SOBRE A GREVE INESCAPÁVEL – Rede Municipal de Educação de Belo Horizonte, 2025

A greve é uma das ferramentas mais antigas e poderosas do movimento dos trabalhadores para garantir direitos e enfrentar situações […]

A greve é uma das ferramentas mais antigas e poderosas do movimento dos trabalhadores para garantir direitos e enfrentar situações de exploração. Historicamente, greves e sindicatos no Brasil desempenharam papel decisivo em conquistas sociais, como as jornadas de 1917 e a criação da CLT, além de terem sido essenciais no processo de redemocratização após a ditadura militar. Contudo, das décadas de 1970 em diante, com a ascensão do neoliberalismo, as greves passaram a ser mais defensivas, marcadas pela fragmentação da classe trabalhadora e por uma diminuição do sentimento coletivo de classe.

No cenário contemporâneo, vivenciamos uma crise capitalista global sem precedentes, com impactos visíveis nas condições sociais do país e do mundo. Aumento do desemprego e do trabalho precário, inflação, fome, falta de moradia e crescimento da população em situação de rua ilustram a deterioração do tecido social. Serviços públicos essenciais, como saúde e educação, são cada vez mais precarizados, ao passo que a juventude das periferias enfrenta obstáculos quase intransponíveis para acessar uma educação de qualidade. Persistem ainda formas graves de violência, como a de gênero e racial, além do genocídio de povos originários, da devastação ambiental e da intensificação da repressão policial. Tudo isso é agravado pelo negacionismo científico e pelo prolongado impacto da pandemia, frutos de uma lógica capitalista excludente.

Neste contexto, a campanha salarial dos profissionais da Rede Municipal de Educação de Belo Horizonte em 2025 ganhou contornos inesperados. Após uma resposta desrespeitosa da administração municipal às reivindicações da categoria, um movimento grevista de grandes proporções se formou, reacendendo sentimentos de unidade, coragem, solidariedade e mobilização entre trabalhadores experientes e novos, de todos os segmentos da educação. A assembleia do dia 2 de julho, marcada por uma adesão maciça das escolas, foi um desses momentos de convergência e força coletiva.

Esses episódios exigem reflexão profunda, pois podem servir de ponto de partida para novas formas de luta e consciência política e social. É necessário, porém, lembrar que a luta por melhores salários e condições de trabalho é parte de uma batalha maior contra as desigualdades estruturais do capitalismo. É urgente pensar em uma educação que vá além das demandas imediatas, que seja revolucionária e anticapitalista, capaz de formar indivíduos críticos e atuantes na construção de uma nova sociedade.

Outro ponto relevante do movimento deste ano foi o debate sobre a não-reposição dos dias parados. Desde a greve de 2014, parte dos trabalhadores optou por não repor, afirmando esse direito diante dos cortes salariais. Mais do que uma decisão individual, a não-reposição pode ser encarada como estratégia coletiva de pressão, ampliando o impacto da greve, atraindo mais adesão e fortalecendo o poder de mobilização, ao mesmo tempo em que reduz desgastes na retomada das atividades.

Assim, a greve atual representa não apenas uma reação a condições locais, mas também um reflexo de desafios globais, apontando para a necessidade de repensar o papel social da educação e fortalecer laços de solidariedade na luta por justiça e transformação social.


Luiz Henrique Roberti – professor de história – EM D. Milton Salles