Ao longo de junho de 2025, as trabalhadoras em educação concursadas da Rede Municipal de Educação de Belo Horizonte protagonizaram uma greve histórica, iniciada em 5 de junho e encerrada em 4 de julho. Um movimento que começou forte, unificando a categoria diante da intransigência da Prefeitura, terminou como um marco de resistência, que também deixou lições sobre processos decisórios e democracia interna. Este artigo não é apenas um relato, mas uma reflexão crítica sobre os acertos, os erros e as lições deixadas por essa mobilização.
A greve consolidou laços que transcendem o ambiente de trabalho: saímos dela não apenas como colegas de escola, mas como companheiras de luta. A adesão maciça ficou evidente nas assembleias de massa, nenhuma delas com menos de 2500 trabalhadoras; em primeiro de julho, mais de 4 mil educadoras votaram pela continuidade da greve, em um ato político sem precedentes na porta da PBH; dois dias depois, 2.500 trabalhadoras reafirmaram sua disposição em lutar, aprovando a
radicalização com uma assembleia permanente em frente à PBH. A ocupação simbólica do espaço público, inclusive com trabalhadoras pernoitando no local, demonstrou a determinação da categoria.
O ponto de ruptura veio no dia seguinte. Após uma audiência de conciliação no TJMG, o Comando de Greve, às 14h15, convocou uma assembleia para 16h na Praça da Estação. Assembleia que contou com a participação de apenas uma fração do quórum das mobilizações anteriores. O primeiro equívoco foi estrutural: a assembleia permanente, aprovada no dia anterior, concedeu ao Comando poderes para convocá-las tempestivamente, sem garantia de ampla participação.
A partir daí, foram erros sucessivos. As principais forças políticas do Comando, em uníssono e durante quase 30 minutos, defenderam o fim imediato da greve, argumentando “enfraquecimento do movimento”. A contradição era gritante: como justificar esse “enfraquecimento” se, menos de 24 horas antes, milhares haviam aprovado a continuidade?
Após as falas do Comando, foi a vez de a categoria se manifestar. A mesa, por definição do Comando, propôs que a categoria votasse entre 5 e 10 falas de 3 minutos. Os presentes, em sua maioria já convencidos sobre a necessidade de finalizar a greve pelas falas do Comando, votou pela limitação da participação da base a cinco falas de três minutos, sendo que algumas dessas falas foram de
membros do Comando.
Ao invés de garantir tempo para reflexão e contra-argumentação, o Comando pressionou por uma votação rápida, alegando prazos do TJ e da PBH. Recursos de votação, questões de ordem e defesas de propostas foram dificultados, e setores combativos da categoria saíram frustrados, sentindo-se ignorados.
A lição é clara: um movimento instituinte (que cria suas próprias regras) não pode reproduzir vícios da institucionalidade que critica. A democracia sindical exige espaço para minorias, transparência nas decisões e mecanismos que evitem a concentração de poder em pequenos grupos.
A greve fortaleceu a categoria, mas seu encerramento apressado revelou suas fraquezas. A unidade construída nas ruas não pode ser diluída em assembleias truncadas. O desafio agora é converter os erros em aprendizado. A greve terminou, mas a luta segue. E será ainda mais forte se soubermos escutar todas as vozes que a compõem.
Saudações fraternas!
Dirce Maria Taroni – Professora Municipal
Escola Municipal Aurélio Pires