Artigo de Avaliação

Demos o primeiro passo no sentido de enchermos o copo cada vez mais, mas não podemos nos descuidar da necessidade de avançarmos na defesa de nossos direitos

Dizem que o otimista é aquele que enxerga o copo sempre meio cheio, enquanto o pessimista, ao contrário, o vê sempre sob uma perspectiva negativa, como um copo com pouco ou quase nenhum conteúdo. Otimistas demais, podemos olhar para o copo, julgando ser seu conteúdo, mais que suficiente, não cabendo, portanto, nenhum esforço no sentido de torna-lo mais cheio. E o contrário, seria olhar para o copo, vazio demais, trazendo desânimo e apatia.  

Deixarmo-nos levar por análises muito superficiais, pode resultar num movimento que nos afasta demais do copo, enxergando nele uma quantidade muito menor de água do que, na verdade, há. A nossa greve foi histórica, trouxe de volta um percentual enorme de colegas que, por algum motivo, estiveram afastadas das lutas e dos movimentos da categoria, recriando laços de solidariedade e fraternidade, que são fundamentais para a nossa organização enquanto trabalhadores. Fizemos lindos Atos, botamos mais de cinco mil pessoas juntas na porta da PBH, movemos a cidade inteira num movimento de apoio de vários setores. Mas, aproximarmo-nos demais do copo, pode nos fazer vê-lo cheio em demasia. Apesar da grandeza de nossa organização, ainda tivemos um movimento de refluxo muito grande, com muitas pessoas retornando para as escolas, trabalhando nos momentos de greve. Findamos uma Greve que se iniciou com mais de 2500 pessoas em Assembleia, com menos de 400, numa plenária corrida, esvaziada, que impediu o contraditório, reduziu defesas, excluiu quem não pode chegar. E, ainda que a avaliação legítima do nosso Comando de Greve fosse pela necessidade de encerramento do movimento, faltou-nos o tempo, a avaliação, a participação e força da base reunida para que a decisão fosse mais democrática, não obstante todas as justificativas sobre termos votado a possibilidade de um chamamento de urgência como o que se deu. Mas o que vamos deixar de aprendizado, de autocritica de mudança para nossa organização futura, frente ao avanço de forças que querem a todo custo destruir o serviço público, os direitos e a qualidade da educação? Como vamos nos organizar nos nossos espaços de trabalho, para ocuparmos os nossos espaços de deliberação e de luta política e sindical? 

Demos o primeiro passo no sentido de enchermos o copo cada vez mais, mas não podemos nos descuidar da necessidade de avançarmos na defesa de nossos direitos, na busca por nossa valorização e na ampliação da participação e da democracia na nossa organização para as lutas que se nos apresentarão no horizonte futuro. E, colegas, se tem um ganho que essa greve nos trouxe, ei-lo: juntos, coesos, organizados e de mãos dadas, somos imbatíveis. Te convido, a subirmos a um píncaro, no qual sejamos capazes de enxergarmos não somente o copo, mas a fonte de água limpa que pode matar a nossa sede. Um lugar de onde todos nós possamos ver a força que a nossa organização pode alcançar, se formos capazes de reconhecermos os erros, os acertos e as necessidades de refazermos os passos por novos caminhos. Que sejamos capazes de enxergarmos além do copo, a fonte de luta, que o fará transbordar. Só a luta muda nossa vida!


Fernando Lucena – Professor de História
Escola Municipal José de Calasanz